segunda-feira, 29 de junho de 2015

Vidas secas


Entre fevereiro e dezembro de 2014, a simpática Itu, a 100 km de São Paulo, ficou um pouco menos simpática. Durante esse tempo, a cidade viveu um racionamento forte: a água era liberada à população dia sim, dia não. Itu virou de pernas pro ar. Houve brigas, assaltos, protestos violentos e até sequestro de caminhões-pipa. 

A seca assombra boa parte do país. Já rondou o Rio e Minas Gerais, mas é São Paulo que está na pior situação. Um estudo do banco Itaú estima a probabilidade de um racionamento de água, que deverá durar pelo menos seis meses, em 75%. "Se houver, vai ter que ser grande", diz Marussia Whately, diretora do projeto Água São Paulo, do Instituto Socioambiental (ISA). A possibilidade mais dura, admitida pela diretoria da própria Sabesp, é o temível rodízio 5x2: a cada semana, cinco dias sem água e apenas dois com. Não é difícil imaginar como isso transformaria (e transtornaria) o dia a dia das pessoas. Mas as consequências iriam bem além.

CHOQUE NA ROTINA

Se as torneiras secarem, os primeiros afetados serão os trabalhadores. Não só porque ficarão sem água; também podem perder o emprego. Segundo o estudo do Itaú, o racionamento de água e de energia (pois as represas que abastecem nossas hidrelétricas estão com níveis baixos) previsto para o ano deve fazer o PIB brasileiro cair 0,6% - além do 0,5% negativo previsto devido a outros problemas na economia. Ou seja: recessão de 1,1%. Menos atividade econômica significa menos empregos. Um levantamento feito pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) em 438 empresas mostra que 42% delas pretendem demitir caso a situação não melhore. Segundo a Fiesp, mais da metade da indústria paulista não tem nenhuma fonte alternativa de água. Havendo um racionamento 5x2 durante seis meses, a produção da indústria paulista - que foi de R$ 288,6 bilhões no ano passado - cairia quase 20%.

Logo no início do racionamento, também haverá uma corrida aos caminhões-pipa. Itu que o diga: na fase mais aguda da crise, a cidade tinha 56 veículos circulando diariamente, e cada um carregava em média 20 mil litros de água por viagem. Se cada caminhão conseguir fazer três entregas diárias, dá 3,3 milhões de litros. Só que Itu tem 160 mil habitantes, enquanto São Paulo soma quase 12 milhões. Ou seja: para gerar o mínimo de alívio, precisaríamos de pelo menos 4.200 caminhões-pipa. É muito mais do que a frota atual da cidade, que conta com cerca de 650 desses veículos. Com tantos caminhões na rua, o trânsito ficaria ainda mais caótico. "Seria necessário um plano enorme de logística, com o fechamento de avenidas para o comboio passar", observa Marussia. A Prefeitura de São Paulo já está tentando facilitar a distribuição de água: recentemente, os caminhões-pipa foram autorizados a entrar no centro da cidade a qualquer hora do dia - antes, só podiam circular depois das 10 da noite. Mesmo se houver caminhões suficientes, e eles conseguirem chegar aonde forem chamados, a solução vai custar caro. 

Em São Paulo, o preço de um caminhão-pipa já subiu de R$ 500 para R$ 1.200. Mas pode ir bem mais alto. No Rio de Janeiro, onde alguns bairros da zona oeste ficaram sem abastecimento, devido a obras na tubulação de água, o preço de um caminhão chegou a R$ 3.500 - e com fila de espera de 24 horas. Suponha que você more num prédio com 60 apartamentos, onde moram 150 pessoas ao todo. Nesse cenário, a carga de um caminhão-pipa duraria apenas um dia. Se o condomínio chamar dez caminhões por mês, só para dar uma aliviada, estamos falando de R$ 35 mil - quase R$ 600 a mais no condomínio de cada apartamento.

Desde fevereiro, a Sabesp já está cobrando mais caro pela água, com multas que podem até dobrar a conta mensal. Mas, no efeito dominó da crise hídrica, os preços de outras coisas também devem subir de modo generalizado. A começar pelos alimentos. De acordo com a Associação Paulista de Supermercados (Apas), em janeiro o preço da batata subiu 60%. Frutas, legumes e verduras estão, em média, 16% mais caros. Na Ceagesp, o quilo do chuchu saltou de R$ 1, em novembro, para R$ 4, em janeiro. A explicação é simples: como está chovendo bem menos, a produtividade da hortaliça despencou, caindo de 20 para 5 toneladas por hectare por mês.

Na Califórnia, em 2013, choveu muito pouco. E o efeito foi o mesmo: alta generalizada nos alimentos, que subiram 15% - dez vezes mais que a inflação registrada no país naquele ano. Com menos água, fica mais difícil plantar tudo, inclusive milho e soja. E, como esses cereais são matéria-prima de ração animal, compromete-se também a produção de frangos, suínos e gado. 

De acordo com a ONG holandesa Water Footprint Network (WFN), produzir 1 quilo de carne bovina requer 15,4 mil litros de água (1 quilo de arroz consome 3,2 mil litros, e 1 quilo de pão requer 1,6 mil). "Os preços de alimentos e bebidas tendem a subir, e isso impacta nos índices de inflação", afirma Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria. No Brasil, alimentos e bebidas respondem por 24,9% da composição do IPCA, um dos principais indicadores de inflação. A projeção da Tendências é que o país chegue ao final do ano com 7,3% de inflação acumulada - acima da meta do Banco Central, 6,5%.

Com a falta d’água, muitas empresas poderão dar um dia a mais de folga por semana a seus funcionários. Até que é legal, não? Mais ou menos. Muitas das opções de lazer, como shoppings, restaurantes e bares, poderão estar fechadas por falta de condições. Porque eles precisam de muita água para funcionar. Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), um shopping de médio porte gasta 6,5 milhões de litros de água por mês. Uma pesquisa feita entre proprietários de bares e lanchonetes indica que 65% deles pretendem reduzir seus horários de funcionamento.

Na contramão da crise, o comércio de água mineral, galões e caixas-d’água só tem a ganhar. Empresas que até poucos meses atrás vendiam 50 galões por dia hoje recebem centenas de pedidos. Quem usava apenas uma caixa-d’água agora busca duas, três. O problema é que, com menos água, as pessoas têm adiado a higienização desses reservatórios - que normalmente ocorre a cada seis meses. E isso eleva o risco de contaminações que causam desde diarreias e gastroenterites até doenças como leptospirose e hepatite A. Também há quem armazene água em recipientes destampados, o que ajuda a multiplicar doenças como a dengue. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, São Paulo registrou 563 casos de dengue até a sexta semana de 2015, um número 163% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado. A expectativa é de que as ocorrências de dengue tripliquem em São Paulo até o final deste ano, podendo chegar a 90 mil.

Os poços artesianos também podem secar. "Muitos deles deixarão de produzir", prevê Antônio Carlos Zuffo, chefe do Departamento de Recursos Hídricos da Unicamp. Como a Grande São Paulo está localizada em um relevo de serra, a maior parte do subsolo é composta por rocha. Por isso, só é possível extrair água de onde há "fraturas" na camada rochosa. Pelos cálculos de Zuffo, a vazão diária de um poço perfurado na cidade de São Paulo varia de 2 mil a 30 mil litros por dia. É o suficiente para abastecer não mais do que 170 pessoas. Além disso, diz ele, muitos poços da capital já apresentam água com cloro e flúor - consequência dos vazamentos, que segundo Zuffo chegam a 40% do total de água distribuída pela Sabesp.

A crise da água tende a gerar um clima de tensão social. Em Itu, a população ficou dez meses em polvorosa. Na fase mais aguda da crise, a prefeitura instalou 17 caixas-d’água de 20 mil litros em locais públicos. A água era distribuída gratuitamente. Mesmo assim, os caminhões-pipa tiveram de ser escoltados pela Guarda Civil. "Em alguns bairros, houve interceptação de caminhões que deveriam abastecer doentes, escolas e unidades de saúde", diz Almir Pacelli Jr., diretor da concessionária Águas de Itu.

Nas catástrofes em que sobra água, como furacões e enchentes, o ser humano costuma criar uma rede de solidariedade. Quando falta água, no entanto, a reação é oposta. "A escassez desperta o pior das pessoas, como o egoísmo, pois envolve algo essencial à vida", diz Zuffo, da Unicamp. O fim da água pode dar origem a uma espécie de apartheid. Quem tem dinheiro constrói cisternas, compra caixas-d’água, pede caminhões-pipa. Quem não tem fica sem. Quem vive em comunidades de áreas elevadas, como morros e favelas, fica definitivamente na seca. Várias das consequências, porém, são mais "democráticas": não há quem possa escapar delas.

Fonte: Superinteressante

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